De manhã tinha sono, não queria acordar, a minha mãe destapava-me eu tapava-me outra vez:
- Despacha-te Lúcia, acorda. É sempre a mesma coisa à noite não queres adormecer, de manhã tens sono.
Começava a birra e era arrancada da cama. Vestir também era acompanhado de choro. Azul não combinava com vermelho, vermelho e verde impensável, mesmo que fosse xadrez, amarela de forma alguma com combinação nenhuma( e ainda hoje não gosto muito de amarelo ). Fazenda pica, camisolas de malha picam. Tira, pica, pica, picaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. Aqui já tinha levado pelo menos uma palmada e eu ficava cada vez mais furiosa com o facto.
Não me queria pentear e a ter mesmo de ser só com uma determinada escova que até era de enrrolar. Por isso antes de entrar para a primária levei um corte à rapazinho.
Para beber o leite ou comer o nestum ou os corn flakes não havia birra.
Lavar a cara também não era tarefa agradável e tinha de ser eu a lavar. E como o fazia. Apenas molhava os indicadores e passava nos olhos. Seguia-se a mão da minha mãe a pingar água e a molhar-me a cara toda. Chorava de seguida.
Entretanto já teria levado outra palmada que não deviam ser palmadas que doessem pois eu todos os dias insistia no mesmo e nem depois de 300 avisos de que ia " apanhar " deixava de o fazer. Eram pelo menos 3 palmadas pela manhã. Na altura a minha mãe desabafava com outras mães e até se falava abertamente de dar palmadas aos filhos, aliás, as pessoas achavam que ela não me batia suficientemente para este meu comportamento repetitivo. Muito eu e ela ouvimos o : Se fosses minha filha...
Depois vinha a puxar por mim ou comigo ao colo a correr de saltos altos pelas ruas de terra, no inverno enlameadas, até à paragem da camioneta que ficava a uns bons 300mts. Eu vinha de " burro amarrado " e não queria andar e enquanto ela me puxava para a frente eu fazia resistência e puxava para trás. Nos dias de chuva vinha feliz com as galochas e com a capa impermeável e o chapéu de chuva. Tinha de vir pelo meu pé, a pisar as poças todas ( que não eram poucas ) e a apreciar o chapéu de chuva que geralmente era trazido da África do Sul, onde já havia uma grande variedade de bonecada. A minha mãe vinha com o chapéu dela meio de lado, para me segurar no braço ou no chapéu. Despacha-te Lúcia, vamos perder a camioneta, vou chegar atrasada.
Às tantas pegava-me ao colo para ser mais depressa, sujava-se com a lama das minhas botas, ficava descoberta do chapéu dela porque não conseguia carregar-me ao colo, carregar a mala dela, mais o chapéu dela e o meu, que ia aberto e volta e meia a picar-lhe a cabeça. Não me lembro do que a minha mãe dizia, mas resmungava muito no caminho até à camioneta. Depois na camioneta eu vinha feliz, a ver o caminho e a minha mãe com um ar de final do dia, e não de princípio de manhã. Deixava-me na minha avó e eu nunca queria que se fosse embora e por vezes chorava a vê-la desaparecer na esquina do prédio, da janela da casa da minha avó.
As manhãs dela não seriam muito mais fáceis que as minhas mas é mais difícil ver os nossos defeitos espelhados nos nossos filhos.
Adenda - De notar que a minha mãe trabalhava num escritório, num sector que ainda hoje é essencialmente " masculino " , mas que na altura era 99% masculino. Os atrasos dela mesmo que de 10 minutos era chamados à atenção e só pela sua competência profissional não era olhada com desdém, do tipo, é mulher, deveria estar em casa.
Lembro-me que de inverno ela usava uma gabardina que provavelmente limparia antes de chegar ao emprego, assim como os saltos dos sapatos que iriam cheios de lama.
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20 novembro 2008
22 setembro 2008
Recordando
Há já um ano que foi o fim às fraldas de dia. De noite foi há 7 meses mas começou a acordar por ela para fazer xixi ( e de manhã com a fralda seca ) há já 10 meses.
Passa mesmo a correr.
Passa mesmo a correr.
11 novembro 2007
Dia de S. Martinho
Dia de castanhas, água pé ( ou jeropiga ) para os adultos, de saltar fogueiras, dia quente e noite fria. Lembro-me que na casa da minha vizinha ( que sempre a tratei assim mas que era quase uma tia ), beirã, se cozinhava geralmente cabrito ou borrego e eu só não jantava lá em casa nessa noite porque não gostava de nenhuma das iguarias. Era compensada com uma tapioca ou um arroz doce feito por ela e uma tigela de marmelada ou geleia de marmelo. Lembro-me de em criança saltar a fogueira, uma fogueira baixinha que não era muito aventureira. Depois, na adolescência e idade adulta, porque passei a viver numa cidade e onde mal conhecia os meus vizinhos, nunca mais se saltou à fogueira nem se estava à conversa na rua com a vizinhança até às tantas.
Há pouco mais de ano e meio voltei à freguesia onde morei até aos 11 anos. Há pouco fui à rua passear a cadela e no ar está um fumo imenso, um cheiro a lenha queimada, ouvem-se vozes de adultos e risos de criança, ouve-se música. Procuro de onde vem tanto fumo e vejo que vem dos quintais aqui e ali, um pouco por todo o lado.
Imagino que também eles irão saltar à fogueira e lembro-me de imediato de tudo o que descrevi. Não vou saltar à fogueira porque ao contrário da minha infância em que quase em cada rua, a festa era pública, aqui são " festas particulares ", mas comemora-se felizmente, que eu há coisas em que gosto de manter as tradições, ainda que adaptadas à realidade actual.
Só este ano conheci a lenda do Verão de S. Martinho, numa das revistas " pedagógicas " que compro.
Este ano comi castanhas assadas no forno eléctrico acompanhadas por uma tisana gelada. O ano passado bebi uns 10 mls de água pé em casa da minha mãe e já não consegui trazer o carro para casa ( tsss... fracota ).
Gostava que daqui a uns anos, também a minha filha associasse o dia de S. Martinho a convívio, a festa e a partilha e que não seja apenas um dia como os outros. Para o ano quero ver se combino com qualquer casal amigo com filhotes e com quintal para ver se fazemos uma festarola, ainda que "privada ".
Há pouco mais de ano e meio voltei à freguesia onde morei até aos 11 anos. Há pouco fui à rua passear a cadela e no ar está um fumo imenso, um cheiro a lenha queimada, ouvem-se vozes de adultos e risos de criança, ouve-se música. Procuro de onde vem tanto fumo e vejo que vem dos quintais aqui e ali, um pouco por todo o lado.
Imagino que também eles irão saltar à fogueira e lembro-me de imediato de tudo o que descrevi. Não vou saltar à fogueira porque ao contrário da minha infância em que quase em cada rua, a festa era pública, aqui são " festas particulares ", mas comemora-se felizmente, que eu há coisas em que gosto de manter as tradições, ainda que adaptadas à realidade actual.
Só este ano conheci a lenda do Verão de S. Martinho, numa das revistas " pedagógicas " que compro.
Este ano comi castanhas assadas no forno eléctrico acompanhadas por uma tisana gelada. O ano passado bebi uns 10 mls de água pé em casa da minha mãe e já não consegui trazer o carro para casa ( tsss... fracota ).
Gostava que daqui a uns anos, também a minha filha associasse o dia de S. Martinho a convívio, a festa e a partilha e que não seja apenas um dia como os outros. Para o ano quero ver se combino com qualquer casal amigo com filhotes e com quintal para ver se fazemos uma festarola, ainda que "privada ".
17 outubro 2007
Dos tempos da universidade
Estavamos no 4º ano da licenciatura. Os tempos das loucuras académicas tinham abrandado, mas ainda assim, muitas das nossas madrugadas de Sábado eram passadas no extinto Indochina.
Às 5ªs, dia do estudante, eram os ensaios das Tunas. Às 5ªs, na hora dos ensaios da tuna masculina nós tinhamos uma aula prática de 3 horas de Gestão Financeira com uma professora um pouco ortodoxa mas que nem assim conseguia muitas vezes captar a atenção das hostes ( mas também final de semana, dia do estudante e depois de almoço não era fácil ). A nossa sala era junto da sala de ensaios da tuna e nós analisavamos balanços e demonstrações de resultados ao som dos acordes e das afinações de vozes. As mesas e bancos corridos permitiam estarmos 4 e 5 ( isto é que era calor humano ) juntos.
Nesse dia estavamos apenas 3 e da sala das tunas ouvia-se o famoso " I will survive " da Gloria Gaynor, uma música que tocava várias vezes no dito Indochina.
O meu querido amigo Manéli, parco em palavras em inglês trauteava a música com uns " na na nas ". Eu e a Denise tentavamos estar atentas à explicação da professora de um qualquer rácio financeiro e estavamos constantemente:
- Cála-te Manel!
Ele calou-se e passado um bocado estava eu e ela instintivamente a cantar e a resolver um exercício :
- Now go, walk out the door...
Enquanto vagueava pelos blogues, vou ter a um que tinha esta música e claro está, veio à memória esta cena.
Esta música entra no ouvido e tenha eu 90 anos e vou-me sempre mas sempre lembrar deste episódio. Eu e eles que sempre que ouvimos a música e estamos juntos nos lembramos do mesmo.
Bons tempos! ( pareço uma velhota a falar mas foram mesmo óptimos tempos )
Divirtam-se e abanem o pézinho se quiserem:
http://www.youtube.com/watch?v=Xv6lHwWwO3w
Às 5ªs, dia do estudante, eram os ensaios das Tunas. Às 5ªs, na hora dos ensaios da tuna masculina nós tinhamos uma aula prática de 3 horas de Gestão Financeira com uma professora um pouco ortodoxa mas que nem assim conseguia muitas vezes captar a atenção das hostes ( mas também final de semana, dia do estudante e depois de almoço não era fácil ). A nossa sala era junto da sala de ensaios da tuna e nós analisavamos balanços e demonstrações de resultados ao som dos acordes e das afinações de vozes. As mesas e bancos corridos permitiam estarmos 4 e 5 ( isto é que era calor humano ) juntos.
Nesse dia estavamos apenas 3 e da sala das tunas ouvia-se o famoso " I will survive " da Gloria Gaynor, uma música que tocava várias vezes no dito Indochina.
O meu querido amigo Manéli, parco em palavras em inglês trauteava a música com uns " na na nas ". Eu e a Denise tentavamos estar atentas à explicação da professora de um qualquer rácio financeiro e estavamos constantemente:
- Cála-te Manel!
Ele calou-se e passado um bocado estava eu e ela instintivamente a cantar e a resolver um exercício :
- Now go, walk out the door...
Enquanto vagueava pelos blogues, vou ter a um que tinha esta música e claro está, veio à memória esta cena.
Esta música entra no ouvido e tenha eu 90 anos e vou-me sempre mas sempre lembrar deste episódio. Eu e eles que sempre que ouvimos a música e estamos juntos nos lembramos do mesmo.
Bons tempos! ( pareço uma velhota a falar mas foram mesmo óptimos tempos )
Divirtam-se e abanem o pézinho se quiserem:
http://www.youtube.com/watch?v=Xv6lHwWwO3w
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